A organização de precatório numa empresa compradora se resume a garantir três coisas: que cada credor da sua lista seja trabalhado uma vez só, pela pessoa certa, e que tudo o que acontece com ele fique registrado num lugar que o gestor consegue ler. Na prática, isso significa dividir o trabalho em seis etapas (lista, primeiro contato, negociação, proposta, documentos e cessão), definir o que precisa ser anotado em cada uma e medir o funil em reais, não em quantidade de leads.

Parece óbvio. Mas a maioria das empresas que compram precatório começou com uma planilha, um grupo de WhatsApp e um quadro no Trello, e foi crescendo em cima disso. Funciona com dois ou três agentes. Depois começa a vazar.

Este guia de organização de precatório é para quem é dono ou gestor de uma operação de compra e quer colocar ordem nela antes de contratar mais gente.

Organização de precatório: quais são as etapas da operação de compra?

Cada empresa dá nomes diferentes, mas o caminho de um credor até a cessão costuma passar por seis etapas.

1. Montar a lista

Tudo começa com uma base de credores: listas de precatórios por tribunal e ano de LOA, bases compradas, indicações. O trabalho aqui é limpar antes de distribuir. Isso quer dizer tirar duplicados (o mesmo processo aparecendo em duas listas é muito comum), completar os dados que faltam e classificar cada precatório por tribunal, ano de LOA, natureza (alimentar ou comum), ente devedor e faixa de valor.

A chave para deduplicar é o número do processo, não o nome do credor. Nome tem grafia diferente, abreviação, acento. Número de processo não muda.

2. Primeiro contato

O agente liga, manda mensagem, tenta de novo. A maior parte das tentativas não dá em nada na primeira vez, e é aí que mora o problema: se o resultado de cada tentativa não fica anotado, ninguém sabe se aquele credor já foi procurado, por quem e o que ele respondeu.

O mínimo a registrar em cada tentativa: data, canal, quem fez e o resultado (não atendeu, número errado, pediu para ligar depois, não tem interesse, tem interesse).

3. Negociação

O credor demonstrou interesse. Agora a conversa é sobre prazo, valor e confiança. É a etapa mais longa e a que mais depende de follow-up: o credor diz "vou conversar com meus filhos e te retorno", e se ninguém marcar a data do retorno, ele esfria.

4. Proposta

Aqui entra a conta: valor de face, correção, impostos, prazo esperado de pagamento e a margem que a empresa precisa. O resultado vira uma proposta formal para o credor, normalmente uma carta proposta.

Dois cuidados. Primeiro, a proposta tem que sair com o valor atualizado, porque proposta calculada em cima de valor velho gera desconfiança ou prejuízo. Segundo, a empresa precisa guardar qual versão da proposta foi enviada e quando, porque negociação de precatório vai e volta.

5. Documentos e análise

Proposta aceita, começa a coleta: documentos pessoais do credor, documentos do processo, certidões. Em paralelo, a análise do crédito, para confirmar que não há impedimento na cessão.

É a etapa onde mais negócio trava. Falta um documento, o credor some por duas semanas, o documento chega vencido. Sem uma lista clara do que já chegou e do que falta, o gestor só descobre o travamento quando o credor já desistiu.

6. Cessão

A cessão é formalizada (muitas operações usam escritura pública) e comunicada ao tribunal de origem e ao ente devedor, que é o que faz ela produzir efeito. Depois disso, o precatório sai do funil de compra e entra na carteira.

Vale registrar aqui o valor de face e o valor pago na cessão. São os dois números que dizem, no fim do mês, se a operação deu dinheiro.

Onde a falta de organização de precatório faz a operação perder dinheiro?

Quase nunca é numa decisão grande. É em quatro vazamentos pequenos que se repetem todo dia.

1. O mesmo credor trabalhado duas vezes. Duas listas trazem o mesmo processo, dois agentes ligam para a mesma pessoa na mesma semana. Na melhor das hipóteses é tempo jogado fora. Na pior, o credor recebe duas propostas diferentes da mesma empresa e para de confiar nas duas.

2. O histórico que vai embora com o agente. O agente sai da empresa, ou só entra de férias, e tudo o que ele sabia sobre os credores dele estava no celular ou numa aba da planilha que só ele entendia. Quem assume começa do zero, e às vezes liga para quem já tinha dito não.

3. O follow-up esquecido. O credor pediu para ligar na semana que vem. Ninguém ligou. Não existe relatório que mostre isso, porque o que não foi feito não aparece em lugar nenhum.

4. O gestor sem número. Quantos credores estão em negociação agora? Quanto isso soma em valor de face? Qual agente converte mais? Qual lista rendeu mais? Se a resposta depende de alguém montar uma planilha na sexta-feira, a operação está sendo gerida no escuro.

O que registrar e o que medir em cada etapa?

Toda organização de precatório começa por uma decisão simples: o que precisa ficar anotado, e em que momento.

Registro e medição por etapa da operação de compra
EtapaO que precisa ficar registradoO que o gestor mede
Listaorigem da lista, tribunal, LOA, natureza, ente devedor, valor de facequantos credores novos entraram, em R$ de valor de face
Primeiro contatocada tentativa: data, canal, agente, resultadotaxa de contato por lista e por agente
Negociaçãopróximos passos com data, objeções do credorquantos negócios estão parados há mais de X dias
Propostavalor atualizado, versão enviada, datapropostas enviadas e aceitas, em R$
Documentoschecklist do que chegou e do que faltatempo médio nessa etapa e quantos estão travados
Cessãovalor de face, valor pago, datavalor cedido no mês, por agente e por lista
Recusa (em qualquer etapa)o motivomotivos de recusa mais comuns, para decidir quando voltar a procurar

Repare na última linha. Credor que recusou não é credor perdido para sempre. Quem recusou porque "achou o valor baixo" pode aceitar daqui a seis meses. Quem disse "já vendi" não. Sem o motivo anotado, a empresa não tem como separar um do outro, e a lista de recusados, que é uma base que já custou dinheiro para trabalhar, fica parada.

Meça em reais, não em quantidade de leads

Esse é o erro mais comum em relatório de operação de precatório. "O agente A converteu 12 credores e o agente B converteu 5" não diz muita coisa se os 5 do B somam três vezes mais em valor de face. Precatório não é produto de ticket fixo, e uma lista de 200 credores pequenos pode valer menos que 20 credores bem escolhidos.

Todo número importante do funil (entrada, negociação, proposta, cessão) deveria aparecer também em R$.

Organização de precatório na equipe: como dividir o trabalho?

Três regras resolvem a maior parte dos conflitos:

  1. Todo credor tem um dono. Um agente responsável por vez. Quando muda de mão, muda registrado.
  2. O histórico é da empresa, não do agente. Nada de anotação só no celular ou em planilha pessoal. Se não está no lugar comum, não aconteceu.
  3. O gestor distribui, o agente não escolhe. Quando cada agente puxa os credores que quer da lista, os de valor alto somem primeiro e os outros ficam sem ninguém.

E uma rotina: uma vez por semana, olhar o que ficou parado. Negócio sem movimento há duas semanas quase sempre tem um motivo que dá para resolver, se alguém perguntar a tempo.

Quando a planilha deixa de dar conta?

Não existe um número exato de agentes a partir do qual a planilha para de funcionar. Mas os sinais de que ela não sustenta mais a organização de precatório são bem claros:

  • dois agentes já ligaram para o mesmo credor sem saber
  • você não consegue dizer, em cinco minutos, quanto está em negociação em R$
  • ninguém sabe por que um credor recusou da última vez
  • a planilha tem abas por agente e ninguém confia na versão consolidada
  • um agente saiu e levou o histórico junto

Se dois ou mais desses já aconteceram, a operação cresceu mais que a ferramenta. Falamos disso em detalhe no comparativo entre planilha e sistema para operação de precatório.

Sistemas feitos para essa operação, como o prosprec, já nascem com a estrutura deste guia: deduplicação por número de processo, histórico de cada credor num lugar só e funil medido em valor de face. Mas dá para aplicar essa organização de precatório em qualquer ferramenta. O que importa é que elas existam.

Perguntas frequentes

O que é organização de precatório?

Organização de precatório é o jeito como uma empresa que compra precatórios estrutura o trabalho: como a lista de credores é montada, como os contatos são distribuídos entre os agentes, como cada negociação é acompanhada até a cessão e como o resultado é medido. É diferente da gestão de uma carteira de precatórios já comprados, que acompanha o pagamento pelo ente devedor.

Qual a diferença entre CRM genérico e sistema para operação de precatório?

Um CRM genérico organiza contatos e negócios, mas não conhece os dados do precatório: número do processo, tribunal, ano de LOA, natureza, ente devedor. Isso obriga a empresa a customizar campos e relatórios. Um sistema feito para a operação já traz esses dados e mede o funil em valor de face.

Qual é o número mais importante numa operação de compra de precatórios?

O valor cedido no período, em reais, comparado ao valor de face que entrou no funil. Ele mostra quanto da base de credores está virando carteira. Quantidade de leads ou de ligações ajuda a entender o esforço da equipe, mas não o resultado.

Como evitar que dois agentes trabalhem o mesmo credor?

Deduplicando a lista pelo número do processo antes de distribuir e garantindo que cada credor tenha um único responsável registrado. Se a distribuição é feita numa planilha compartilhada, vale travar a coluna de responsável e revisar duplicados toda vez que uma lista nova entra.