Para medir a qualidade da originação de precatório, o fundo precisa olhar além da quantidade de leads e de negócios que cada broker traz. Seis indicadores, calculados do mesmo jeito para toda a rede, resolvem a maior parte da questão: conversão em cessão por valor de face, proporção de leads com documentação completa, valor disponível real comparado ao informado, retrabalho, motivo de perda registrado e tempo até a cessão. Juntos, mostram quem traz negócio que fecha e quem traz volume que só ocupa a análise.
O fundo paga pela originação, mas costuma medir só o volume. Este guia é para o gestor que quer trocar a pergunta "quanto chegou?" por "quanto do que chegou vale a pena?".
Este é um guia de gestão, não um parecer jurídico. A apuração do valor disponível de cada precatório deve ser conferida pelo jurídico do fundo.
Por que medir só volume engana o fundo?
Porque volume é o número mais fácil de inflar. Um broker que manda a lista inteira de um tribunal parece produtivo, mas cada lead consome tempo do fundo: conferir o processo, pedir documento, calcular proposta. Quando quase nada disso vira cessão, o custo da originação aparece na hora da equipe de análise.
O segundo problema é contar negócios em vez de reais. Veja um exemplo hipotético, com dois brokers no mesmo mês:
- Broker A traz 40 leads, com R$ 8 milhões de valor de face somado, e fecha 6 cessões que somam R$ 480 mil. Por quantidade, converte 15%. Por valor, 6%.
- Broker B traz 20 leads, com R$ 4 milhões de valor de face, e fecha 2 cessões que somam R$ 1,6 milhão. Por quantidade, converte 10%. Por valor, 40%.
Pela contagem, A parece melhor. Em dinheiro que virou carteira, B entregou mais de três vezes o que A entregou, com metade dos leads. Se a comissão segue a contagem, o fundo premia o perfil errado.
Quais indicadores medem a qualidade da originação de precatório?
As faixas de alerta são decisão de cada fundo. O que vale é usar a mesma régua para todos os brokers e comparar cada um com a mediana da rede.
| Indicador | Como calcular | Sinal de alerta |
|---|---|---|
| Conversão em cessão por valor de face | Valor de face das cessões fechadas ÷ valor de face de todos os leads que o broker trouxe no mesmo período de entrada | Conversão por quantidade boa e por valor fraca: o broker fecha os créditos pequenos e deixa os grandes cair |
| Documentação completa | Leads que chegaram à análise com todos os documentos do checklist ÷ total de leads enviados para análise | O fundo devolve dossiê ao mesmo broker mês após mês |
| Valor disponível real versus informado | Valor disponível apurado na análise ÷ valor informado pelo broker, lead a lead | Diferença recorrente e sempre para menos |
| Retrabalho | Leads com processo já existente na base ou credor já abordado por outro broker ÷ total de leads trazidos | Proporção alta, ou conflitos repetidos com o mesmo broker |
| Motivo de perda registrado | Leads perdidos com motivo preenchido ÷ total de leads perdidos, mais a distribuição dos motivos | Muito "outros" ou campo vazio, ou concentração em motivos que indicam base ruim, como "sem contato" e "já vendeu" |
| Tempo até a cessão | Mediana de dias entre a entrada do lead e a cessão assinada | Broker muito acima da mediana da rede, ou muitos negócios parados na mesma etapa |
Três pontos de cálculo pedem cuidado.
Conversão: compare turmas, não meses soltos
Cessão demora. Dividir as cessões de outubro pelos leads que entraram em outubro mistura negócios de origens diferentes. O cálculo mais justo acompanha a turma: os leads que o broker trouxe em julho e quanto desse valor de face virou cessão até hoje. Assim o broker novo não é punido por um funil que ainda não amadureceu.
Valor disponível: o broker informa o bruto, o fundo compra o líquido
A cessão só alcança o valor disponível: o valor líquido depois de contribuição social, FGTS, honorários advocatícios, penhora registrada, parcela superpreferencial já paga, compensação parcial e cessão anterior, se houver (Resolução CNJ 303/2019, art. 42, § 2º). O broker que informa só o valor de face faz o fundo calcular proposta sobre um crédito que não existe. Registre os dois números em cada lead.
Retrabalho: separe base repetida de conflito com outro broker
São dois problemas diferentes. Processo repetido é base mal filtrada: o broker comprou a mesma lista que outro ou reenviou o que já tinha mandado. Credor abordado por dois brokers é conflito de campo, e desgasta o credor antes de ele chegar ao fundo. O post sobre controle de brokers trata da regra para resolver esses conflitos.
O que o fundo precisa registrar para calcular esses números?
Nenhum desses indicadores sai de planilha mandada no fim do mês. Eles dependem de dados registrados quando as coisas acontecem. O mínimo, por lead:
- Broker de origem e data de entrada. Sem isso, não há turma nem comparação.
- Número do processo. É a chave para detectar repetição, e não o nome do credor, que aparece escrito de vários jeitos.
- Valor de face informado e valor disponível apurado. Os dois, em campos separados.
- Checklist de documentos. O que chegou e o que falta, por tipo de documento.
- Etapa atual e data de cada mudança. É daí que sai o tempo até a cessão e a etapa em que cada broker trava.
- Motivo de perda obrigatório. Nenhum lead sai do funil sem ele, com uma lista fechada de motivos.
- Data da cessão e valor cedido. O fim da conta.
No prosprec, a importação barra o processo repetido dentro da campanha e reconhece, pelo número do processo, o precatório que já existe na base, juntando os contatos num registro só. Em qualquer ferramenta, o requisito é este: a checagem pelo número do processo precisa rodar contra a base inteira do fundo, e não só contra a carteira daquele broker. No guia de CRM para fundos listamos o que exigir de um sistema antes de contratar.
Isso não exige que o broker veja a carteira dos outros: a ferramenta compara, e o broker só precisa saber que o processo já está na base. O desenho de acesso por broker explica esse recorte.
Como dar retorno ao broker com esses números?
Medir sem devolver o resultado vira fiscalização, e rede que se sente vigiada passa a esconder o que tem. Um roteiro que costuma funcionar:
- Mesma régua para todos, combinada antes. O broker sabe, desde o primeiro mês, quais números serão olhados e como cada um é calculado.
- Conversa individual, todo mês. Cada broker vê os próprios números ao lado da mediana da rede, sem os nomes dos outros. Ranking público estimula disputa por lead, não por qualidade.
- Comece pelo que melhorou. Depois, um ou dois pontos de atenção. Quem recebe seis críticas de uma vez não muda nenhuma.
- Mostre os casos, não só a média. Três processos com honorários destacados que o broker não viu convencem mais que uma porcentagem.
- Ouça o outro lado. Se um broker perde muito por "valor baixo", talvez o problema seja a tese de preço do fundo para aquele ente. O indicador também avalia o fundo.
- Ligue a qualidade a algo que o broker valoriza. Prioridade na análise, resposta mais rápida sobre proposta ou comissão melhor para quem entrega dossiê completo. Se só muda a cobrança, o broker não tem por que mudar.
- Registre o combinado. O ponto de atenção de um mês abre a conversa seguinte.
Em poucos ciclos, o perfil de cada broker fica claro. Uns trazem pouco e bem documentado, outros trazem muito e pedem filtro na entrada. Os dois podem servir ao fundo, desde que ele saiba qual é qual.
Perguntas frequentes
O que é originação de precatório?
É o trabalho de encontrar credores de precatório, negociar com eles e levar o negócio até o comprador. Num fundo, costuma ser feita por uma rede de brokers comissionados na cessão. Por isso, a qualidade da originação de crédito judicial pesa direto no custo do fundo.
Qual é o indicador mais importante para avaliar um broker de precatório?
A conversão em cessão por valor de face, calculada por turma de entrada. Ela mostra quanto do que o broker trouxe virou carteira, em reais. Os outros indicadores explicam por que a conversão está alta ou baixa.
Por que medir por valor de face e não pela quantidade de negócios?
Porque créditos pequenos tendem a fechar com mais facilidade e inflam a contagem. Quem fecha muitas cessões pequenas pode entregar menos que quem fecha poucas e grandes. O fundo compra valor, então mede valor.
De quanto em quanto tempo o fundo deve revisar esses números com o broker?
Uma conversa mensal costuma bastar, sem virar microgestão. Como a cessão leva tempo, a conversão por turma só fica confiável depois de alguns meses de histórico.
Leia também: Pipeline de cessão de precatório: as etapas e onde os negócios travam.
